terça-feira, julho 05, 2011

Kit de sobrevivência para enfrentar a subida dos juros.

Kit de sobrevivência para enfrentar a subida dos juros
Alexandra Brito  
05/07/11 15:44

Seis conselhos a reter:

1 - Não se endivide mais
É absolutamente proibido contrair mais créditos. Esta é a opinião unânime dos especialistas ouvidos pelo Diário Económico. Numa altura em que o País e o sector empresarial enfrentam uma desalavancagem forçada, as famílias têm de seguir o mesmo caminho. Segundo os dados do Banco de Portugal existiam no final do primeiro trimestre deste ano 3,8 milhões de particulares com crédito ao consumo e 2,4 milhões de famílias com empréstimos à habitação. E o número total de famílias com créditos não tem parado de aumentar, mesmo apesar da crise. Em contrapartida a taxa de poupança das famílias está a decrescer. Segundo os dados do Banco de Portugal, no ano passado a taxa de poupança caiu para os 9,8%, quando em 2009 se tinha situado nos 10,9%. Mas não é apenas por estas razões que este não é o momento para as famílias contraírem mais dívidas. Fazer um crédito hoje é consideravelmente mais caro e mais difícil do que há três anos atrás. Se em 2008 era possível obter um ‘spread' de 0,5% no crédito à habitação, atualmente os ‘spreads' mínimos rondam os 2%, mas podem atingir os 5,95%. Além disso, os bancos apresentam rácios de financiamento baixos (60%/70%), o que implica que os clientes tenham em carteira dinheiro disponível para darem uma "entrada generosa" para a compra de casa.

2 - Previna-se e faça as contas
Prevenir é mesmo o melhor remédio para lidar com a subida dos juros e dos efeitos negativos da crise. Mesmo que a sua situação financeira atual seja saudável, os especialistas deixam alguns conselhos. Afinal, uma situação de desemprego ou uma doença poderá facilmente desequilibrar as finanças de uma família. Para prevenir tais imprevistos deverá ter guardada uma almofada financeira equivalente a seis salários do agregado familiar. Esta poupança deverá ainda estar alocada em aplicações financeiras de elevada liquidez (como os depósitos a prazo ou fundos de tesouraria) de forma a facilitar a sua movimentação em caso de uma emergência. Além de constituir este fundo de emergência, os especialistas aconselham os consumidores a fazerem as contas ao seu empréstimo à habitação, fazendo simulações de qual será a prestação da casa caso os juros subam mais 2%. Desta forma, as famílias ficam a saber se os seus orçamentos estão preparados (ou não) para subida das taxas Euribor. Por exemplo, um empréstimo de 150 mil euros a pagar em 30 anos, com um ‘spread' de 1,5% e indexado à Euribor a seis meses irá pagar em Julho uma prestação de 652 euros. Mas se a Euribor subir mais dois pontos percentuais (face aos níveis atuais), a prestação dispararia para os 827 euros.

3 - Opte pelo alargamento do prazo dos empréstimos
Se tem créditos a seu cargo e nota já algumas dificuldades em conseguir cumprir com os seus compromissos junto da banca, não deixe a situação arrastar-se. Fale com o seu gestor de conta, exponha a sua situação e tente renegociar as condições do empréstimo. No entanto, este não deverá ser um processo fácil. "O poder negocial que os clientes têm no atual contexto é muito reduzido", refere João Cantiga Esteves. Um reflexo desta realidade são as dificuldades que os consumidores têm hoje para negociar o ‘spread' dos créditos à habitação- uma tarefa praticamente impossível no atual contexto. No entanto, os bancos também não estão interessados que o crédito malparado aumente, por isso estão hoje mais receptivos a encontrar soluções para que os clientes evitem entrar numa situação de incumprimento. Algumas dessas soluções poderão passar, por exemplo, pelo alargamento do prazo do empréstimo, o que levará a uma redução da prestação da casa. Em alternativa, os clientes poderão pedir a carência de capital. Ou seja, durante um determinado período, o cliente paga apenas os juros do empréstimo.

4 - Taxa fixa: Uma opção para quem privilegia a estabilidade
O economista João Cantiga Esteves é um acérrimo defensor do crédito à habitação com taxa fixa. "Ao indexar o crédito a uma taxa variável, os bancos estão a transferir para os clientes o risco das taxas de juro. O que é grave. No atual contexto, não é preciso a Euribor subir muito para que o efeito seja devastador para muitas famílias. Ao fixar a taxa do crédito à habitação durante 30 anos, por exemplo, eu estou a eliminar esse factor de volatilidade". No entanto, importa referir que nas actuais condições de mercado, fazer um crédito à habitação com taxa fixa é mais caro face à taxa variável. Por exemplo quem contratar hoje um empréstimo à habitação indexado à Euribor a seis meses estará sujeito a uma taxa anual nominal (TAN) mínima de 3,75% . Um valor que tem em conta 1,75% de média da Euribor a seis meses registada em Junho, acrescida de um ‘spread' de 2%. Já quem fixar a prestação da casa durante 30 anos, estará sujeito a uma TAN de 5,785% - inclui taxa swap a 30 anos de 3,785% registada a 29 de Junho e um ‘spread' de 2%. No entanto, para o professor universitário, no longo prazo, a taxa fixa é mais vantajosa. "Posso pagar uma prestação mais elevada nos primeiros anos mas ao optar pela taxa fixa estou a pagar a certeza, a estabilidade e a eliminar a volatilidade dos juros", refere .

5 - Ponha o seu orçamento familiar em regime de dieta
Perante uma subida dos juros e do consequente aumento da pressão sobre os orçamentos familiares só existem duas soluções para evitar um impacto negativo: ou os ordenados esticam, ou os gastos encolhem. Tendo em conta as medidas de austeridade anunciadas (aumento de impostos, inflação elevada, corte dos salários mais elevados na função pública) dificilmente é possível fazer crescer os ordenados. A não ser que siga a sugestão do economista da IMF. "Lá fora, sobretudo nos EUA, vemos muitas pessoas que pela necessidade de aumentarem os seus rendimentos optam por transformar um ‘hobby' [como a carpintaria] numa fonte de rendimento adicional ao salário habitual. O actual momento pode ser, de facto, uma altura para que isso também aconteça em Portugal", afirma Filipe Garcia. Mas a forma mais fácil de não deixar que a subida dos juros ponha em causa a sua estabilidade financeira será através do controlo das despesas. "Há que separar aquilo que é prioritário, do acessório", afirma João Cantiga Esteves. E também aqui não existem soluções universais. Ou seja, cada caso é um caso, e aquilo que pode ser uma despesa supérflua para uma família, para outra é um gasto essencial. Por isso cada pessoa terá de fazer a discriminação das suas despesas e rendimentos para perceber quais são as despesas que poderão ser eliminadas ou reduzidas.

6 - Coloque a subida dos juros a favor das suas poupanças
Nem tudo é negativo num cenário de subida de juros. Quem tem poupanças, por exemplo, poderá até beneficiar da tendência altista dos juros e da escassez de liquidez que o sistema financeiro enfrenta. Isto porque existem algumas aplicações financeiras que estão a beneficiar da actual conjuntura. É o caso dos depósitos a prazo. Há 11 meses que a remuneração destas tradicionais aplicações a prazo tem vindo a subir de forma quase consecutiva. Os números do boletim estatístico mostram os juros médios praticados nos depósitos a particulares em Abril eram de 3,33%. Mas há no mercado bancos que estão a oferecer mais. Segundo os dados compilados pela Deco, existem pelo menos cinco depósitos a 12 meses que oferecem taxas brutas acima dos 4%. O melhor depósito para este prazo é o DP TOP II do banco BiG que tem uma taxa de 4,75%. O único inconveniente é que exige um montante mínimo de investimento de 60.000 euros. Quem tivesse este dinheiro disponível e o aplicasse neste depósito chegaria ao fim de um ano com uma mais-valia líquida de 2.238 euros. Mas não são apenas os depósitos que beneficiam da alta das taxas de juro. Os certificados de aforro, por exemplo, também veem a sua remuneração subir, já que a sua rendibilidade está indexada à evolução da Euribor a três meses

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